quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Apoteose do disfarce

Os vaticínios mais ou menos apocalípticos de final de ano são sempre curiosos. Em geral, à revelia de se pressagiar um 'difícil ano económico', as perspectivas tendem a ser optimistas, e, talvez neste final de 2008, o mundo aguarde soluções como provavelmente não se via desde o final da 2ª Guerra Mundial. A verdade é que, se recordarmos palavras de Walter Benjamin escritas em 1955, as expectativas ingénuas esboroam-se e levam-nos a crer que a instabilidade, a insegurança e a anulação da efectiva liberdade voltam como novos slogans de uma sociedade que vive cada vez mais para o disfarce (já Obama diz que vai mandar reforços para o Afeganistão). A guerra, a guerra.


A crescente proletarização do homem contemporâneo e a crescente formação de massas são duas faces da mesma medalha. O fascismo tenta organizar as massas recentemente proletarizadas, sem tocar nas relações de propriedade que estas pretendem eliminar. O fascismo vê a sua salvação no facto de permitir às massas que se exprimam mas, de modo nenhum, que exerçam os seus direitos. As massas têm direito a exigir uma alteração das relações de propriedade; o fascismo pretende dar-lhes expressão, conservando essas relações. Por conseguinte, o fascismo acaba por introduzir uma estetização na vida política. À violência sobre as massas a quem, através do culto de um 'fuhrer', o fascismo impõe a subjugação, corresponde a violência que sofre um aparelho utilizado so serviço da produção de valores de culto.

Todos os esforços para introduzir uma estética na política culminam num ponto: a guerra. A guerra, e só a guerra, torna possível fazer de movimentos de massas em grande escala um objectivo, mantendo as relações de propriedade tradicionais. Do ponto de vista político, assim se formula a situação. Do ponto de vista da técnica, formula-se da seguinte forma: só a guerra possibilita a mobilização dos actuais meios técnicos, mantendo as relações de propriedade. É evidente que a apoteose fascista da guerra não utiliza este argumento. No manifesto de Marinetti, sobre a guerra colonial etíope, diz-se: 'Há vinte e sete anos que nós, futuristas, nos manifestamos contra o facto de se designar a guerra como antiestética... por conseguinte, declaramos: ... a guerra é bela porque fundamenta o domínio do homem sobre a maquinaria subjugada, graças às máscaras de gás, aos megafones assustadores, aos lança-chamas e tanques. A guerra é bela porque inaugura a sonhada metalização do corpo humano. A guerra é bela porque enriquece um prado florescente com as orquídeas de fogo das metralhadoras. A guerra é bela porque reúne numa sinfonia o fogo das espingardas, dos canhões, dos cessar-fogo, os perfumes e os odores da putrefacção. A guerra é bela porque cria novas arquitecturas, como a dos grandes tanques, a da geometria de aviões em formação, a das espirais de fumo de aldeias a arder, e muitas outras'.

Este manifesto tem a vatagem de ser claro. A estética da guerra actual apresenta-se-lhe da seguinte forma: se o aproveitamento natural das forças produtivas for travado pelo sistema de propriedade, então o aumento de recursos técnicos, de ritmo, de fontes de energia, será impelido a uma valorização não natural. É o que sucede na guerra que, com as suas destruições, demonstra que a sociedade não tinha maturidade suficiente para incorporar a técnica como órgão seu, e de que a técnica não estava suficientemente desenvolvida para dominar as suas forças sociais elementares. A guerra imperialista é determinada, nos seus mais terríveis aspectos, pela discrepância entre os poderosos meios de produção e o seu aproveitamento inadequado no processo produtivo (pelo desemprego e escassez de mercados). A guerra imperialista é uma revolta da técnica que reclama sob a forma de 'material humano' aquilo que a sociedade lhe retirou como material natural. Em vez de canalizar rios, conduz a corrente humana ao leito das suas trincheiras, em vez de lançar sementes dos seus aviões, lança bombas incendiárias sobre cidades e, como a guerra do gás, encontrou um meio de aniquilar a aura, de uma nova forma.

"Que a arte se realize, mesmo que o mundo deva perecer", diz o fascismo e, como Marinetti reconhece, espera que a guerra forneça a satisfação artística da percepção dos sentidos alterados pela técnica. Isto é, evidentemente, a consumação da 'l'art pour l'art'. A humanidade que, outrora, com Homero, era um objecto de contemplação para os deuses do Olimpo, é agora objecto de auto-contemplação. A sua auto-alienação atingiu um grau tal que lhe permite assistir à sua própria destruição, como a um prazer estético de primeiro plano.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

" Tranquilidade. Penetrar num imóvel modernista tem qualquer coisa de experiência catártica, tranquilizante. Ser um ser circulatório entre as linhas amplas e espaços tecnocratas, desnudados, simplificados, espacialmente amplos e como que matematizados. Torna-se um espaço sensorial, exploratório, característica que o torna especial, ideal, para a exploração da arte – ou seja, de outros espaços sensoriais. Gosto de ir “à Gulbenkian” para isso mesmo, ou simplesmente para estar. O vanguardismo dos espaços continua actual, e circularei no complexo sempre com deleite visual. A orgânica é mecânica, não humana. Em cada ponto que se esteja, para cada plano que se olhe, constata-se uma composição arquitectónica cuja estética surpreende sempre pelo seu equilíbrio particular. Tenta-se, fugazmente, capturar a sua imagem. "

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

pró-forma

O despertador finge-se cool ao som de 'Absolutely Cuckoo'. Hoje toca cedo porque decidi contornar o ócio matinal, apanágio das manhãs de Inverno. Levanto-me e, instantaneamente ligo a televisão. Séries norte-americanas, como prato do dia (manhã, tarde, noite). Mas leves, que ao acordar não apetece ver o agente Cooper e afins. 09h20, devia ir fazer exercício (primeiro o emocional, depois o físico). A indumentária, ao sair de casa, surpreende-me. Burguesinha ocidental. Uma t-shirt verde/azul marinho com o símbolo da Adidas ('mas por que raio tens isto?'), umas calças justas e uns ténis Nike à la Amy Winehouse em ruas de Picadilly City. Eles não me pagaram a publicidade. Nem tampouco me lembro de me alugar no e-Bay como spot. Pró-forma. Hoje vesti-me pró-forma, como a miúda da periferia de Paris, ou do centro de Tóquio. Formatada.
Mas, curiosamente, entro no carro (burguesa ocidental) e penso-me, à revelia da indumentária de hoje, perfeito cliché woodyallenesco - tenho sessões de psicoterapia, leio McLuhan, vejo Bergman e rio-me da ironia que é ter medo da intimidade. Infelizmente não vivo em Manhattan. Nem tudo o que é pró-forma é completo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Do you take Dexter Morgan?


Maybe I'm making the biggest mistake of my life, but who's perfect? Certainly not me, certainly not Harry. Sure I'm still who I was, who I am. Question is what would I become. There so many blanks left to fill in. But right now, at this moment I'm content. Maybe even happy. And I have to admit, what I always said undone. Life is good.

Dexter, season 3, episode 12

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O passeio dos livros

Esquerda, direita. Esquerda, direita. Lá andam eles mais uma vez. Os livros. Passeam-se mais uma vez os livros, como ornamento bonito de se exibir. Viajam para cá e para lá nas mãos e regaços dos transeuntes. Mas raros são os discretos, mais costumeiros os portentosos. Grandes e imponentes pedaços de pasta de papel compactada de títulos sonantes. Olho em frente e uma mulher dos seus 30 anos enverga um José Rodrigues dos Santos, com o orgulho de um Joyce, desfolhando as páginas de letras gordas e espaçadas com as suas trabalhadas unhas de gel. Ao lado, a antítese, como que uma defesa da verdadeira literatura perante essas odiosas cópias. Um distinto senhor percorre as últimas linhas de um A Viagem do Elefante, com o afagado semblante daquele que termina uma leitura. É curioso como podemos fazer um reconhecimento por um livro. No fundo, haverá algo mais revelador do que aqueles que escolhemos por nossa companhia? Penso no Cervantes que tenho na mala, também ele parece querer-me dar conversa.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

não estar

Começara a ver tudo com a distância dos renegados. Passeava pelos outros como puro espectro e sombra desfocada. Não conseguia erguer aqueles olhos mártires, baços, envidraçados pela indiferença. Nos sons e nas palavras só via futilidade e estúpidas redundâncias, substâncias ocas de esforços inúteis pelo mais ínfimo sentido das coisas. Olhava com o desdém da clareza e com a dureza da solidão. Desaprendera os hábitos, os gestos e os olhares. Sabia-se simples nome, simples injunção de consoantes e vogais. Injunção essa fácil de esquecer e de apagar pela imposição da ausência. Inexistente; porque sob o peso da ausência sabia-se verdadeiramente ninguém.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Suécia

Ando em movie sessions de Bergman e com vontade de passear pelas ruas de Estocolmo e cruzar-me com isto. Vamos?


Ou será que elas só o fazem em S. Francisco?

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Banda Sonora de Inverno


Microcastle - Deerhunter

É o disco mais badalado deste final de ano e um dos meus grandes de 2008. Ouve-se em repeat por estes lados. Destaque para Agoraphobia (no vídeo), Microcastle e Neither of us, uncertainly. A crítica aqui.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Prosa cinematográfica


É o cinema uma arte? A arte existe? Se existe, o cinema será então, também, arte, na medida em que todo o cinema interpreta uma realidade, ou um sonho, uma acção concreta, ou um voo da imaginação.

O cinema é, pode dizer-se, uma síntese de todas as artes, e os seus realizadores imprimem, através da sua imaginação, imagens e sons com que constróem os seus próprios filmes, fazendo-se eles, do cinema, seus autênticos criadores.

Temos visto passar nos ecrãs toda uma variedade infinda de histórias, de técnicas, ou de processos. Mas eles surgem de cada vez - num cinema criativo, claro está - sob uma forma sempre nova.

Por isso, o cinema, como o teatro, a literatura, a pintura ou a música - elementos da síntese cinematográfica - é altamente dinâmico e a sua fisionomia transforma-se ao impulso do seu realizador, senão também às coordenadas da época.

Direi que, o teatro e o cinema serão sempre presentes pela necessidade do homem recriar a vida e de fixar-lhe a memória.

Eis que a velha guarda vos passa o testemunho. O futuro do cinema está nas vossas mãos. Confiai em vós e na vossa autenticidade. Não vos deixeis iludir por um público de multidão, tantas vezes enganador.

Sejamos sinceros connosco próprios, pois não haverá maneira mais nobre de amarmos o público.

E preservemos juntos o sortilégio de um ecrã mágico no fundo de uma sala escura onde olhos e ouvidos repousam atentos.

Manoel de Oliveira
Discurso proferido na entrega dos cartazes aos realizadores do futuro no Festival de Roterdão, 1988

Quando nós queremos e eles não

Hoje senti-me alvo do ataque dos falsos tecnocratas deste país de engenheiros (não levem demasiado a peito). Pois que a FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) após abrir concursos nos centros de investigação universitários, e tendo o concurso terminado há algumas semanas, lembra-se agora que não tem capacidade de financiamento suficiente, especialmente para as Ciências Sociais e Humanas. Conclusão - congelamento de projectos e procrastinação de novas investigações.

Hoje fui a lesada, eu e as gentes das Letras. Sabem lá eles que silenciosos e ardilosos assassínios são estes. Querem engenharia aeronáutica em Portugal? Tenham-na. Querem desenvolvimentos na energia nuclear? Muito bem. Mas não assentem essa construção numa desconstrução paralela. Qualquer dia não temos pessoas a pensar e construir saber. É angustiante quando somos nós a querer e não podemos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Desafio

A Rute passou o testemunho:

1. Agarrar o livro mais próximo.
2. Abrir na página 161.
3. Procurar a 5ª frase completa.
4. Colocar a frase no blog.
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro! Utilizar mesmo o livro que estiver mais próximo.
6. Passar a 5 pessoas.

Pois o que encontrei foi o seguinte:

'Capital byplay!' said the old man aside.

Lewis Carroll, The Complete Stories and Poems

Passo a mensagem agora ao Pedro, à Carolina, ao Mário, ao Francisco e à Maria del Sol.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Em repeat


Têm dos títulos mais arrojados do ano e fizeram do melhor da safra de 2008. Para aqueles que não são fãs de Artic Monkeys (como eu), vale a pena dar uma oportunidade a The Age of the Understatement, o trabalho de Alex Turner e Miles Kane, que vicia logo no arranque, com o tema homónimo que lhe dá nome.