sábado, 31 de maio de 2008

Sing one for me

"As pessoas entusiasmadas porque ela não saía do palco, ela que não saía do palco porque as pessoas estavam entusiasmadas, estranha rapariga de feições estranhamente belas e vincadas, que agradecia mais e mais, essa rapariga de quem gostamos porque sofreu, de quem gostamos porque se engana e pede desculpa, de quem gostamos e que aplaudimos porque teve a coragem da sua fragilidade."

E, como diz o Mexia, foi isto. O swing, o jazz, o soul power, o sapateado arrojado, mas tímido, a comprovar que mais do que uma jukebox ambulante é uma under cover lady como talvez não víamos desde Mitchell ou Janis. Até o espanhol saiu bem.

Depois disto, não fiz falta nenhuma em Animal Collective.

Do egocentrismo exacerbado 2

Nico, na intemporalidade do não-propósito.

Infelizmente, são estes os dias.

Do egocentrismo exacerbado

Porque a fuga da realidade não é possível e porque tudo se vai tornando um fardo. Egocentrismo? Talvez. Tédio? Melancolia.

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

segunda-feira, 26 de maio de 2008

La Nouvelle Vague retourne

Fizeram ambas parte dos franceses Nouvelle Vague, e isto, por si só, já seria selo de qualidade e creditação. À revelia do meu muito assumido fanatismo pela banda, após a audição dos recentes albúns a sólo de Phoebe Killdeer e Camille, em projectos distintos, confirma-se que a ousadia, a sensualidade e a capacidade de se metamorfesearem se mantém.
Phoebe Killdeer, talvez o membro mais emblemático dos Nouvelle, aposta agora no albúm Weather's Coming, em conjunto com os The Short Straws, e presenteia-nos com um elenco de temas que oscilam entre a bossa, o jazz, o lounge, num som garrido, irónico, arrojado e meticuloso. Diz a crítica ser a próxima PJ Harvey. Ouça-se Big Fight ou Paranoia. Não é PJ, é Phoebe, a Phoebe de Human Fly, tão singular quanto tinha deixado já manifesto, quer nos seus projectos de estúdio, quer nas suas apresentações ao vivo.
Camille, já nestas lides da carreira a sólo há pelo menos dois anos, edita este ano Music Hole, que, tal como um nome indica, é um "buraco" imenso de fonias múltiplas, em que perpassamos pelo downtempo, o lounge, a bossa, o trip-hop e até mesmo o hip-hop. De máscaras variadas, é um albúm que surpreende a cada faixa, em transições inesperadas como a de Cats&Dogs para Kfir, por exemplo.
A confirmação de que a nova vaga francesa veio para ficar, e com classe.


Phoebe Killdeer And The Short Straws - Paranoia

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Sadly one Sunday

Escrita em 1933 pelo compositor húngaro Seress e com letra de Jávor, esta é, muito provavelmente, das músicas da história recente com mais misticismo e com uma aura que tem tanto de enigmático quanto de fantástico. Recentemente conhecêmo-la por "Gloomy Sunday" e, sendo composta num dia chuvoso, foi hino do suicídio macabro do seu criador, precisamente num domingo. Desde então, muitos têm seguido as pisadas de Seress, saltando de uma janela ao som da perturbante melodia. Hoje fala-se de um próprio "culto do suicídio" gerado em torno de "Gloomy Sunday".

Ao ouvirmos a voz arrepiantemente espantosa de Diamanda Galás a ecoar estas palavras belamente escritas, percebemos porquê.


The earth and the flowers
Are forever above me
The bell tolled for me
And the wind whispered, "Never!"
But you I have loved
And I'll bless you forever
Last of all Sundays



Gloomy Sunday - Diamanda Galas

terça-feira, 20 de maio de 2008

Disdainful


Dizem-me que estou cada vez mais desdenhosa, fria, seca e arrogante.

Ao menos tenho a Lhasa, que parece também o ser.


Aunque mi vida esté de sombras llena
No necesito amar, no necesito
Yo comprendo que amar es una pena
Y que una pena de amor, es infinito

Y no necesito amar, tengo vergüenza
De volver a querer lo que he querido
Toda repetición es una ofensa
Y toda su expresión es un olvido

Desdeñosa, semejante a los dioses
Yo seguiré luchando por mi suerte
Sin escuchar las espantadas voces
De los envenenados por la muerte

No necesito amar, absurdo fuera
Repetir el sermón de la montaña
Por eso he de llevar hasta que muera
Todo el odio inmortal que me acompaña

Aunque mi vida esté de sombras llena
No necesito amar, no necesito
Yo comprendo que amar es una pena
Y que una pena de amor es infinito

Y no necesito amar, tengo vergüenza
De volver a querer lo que he querido
Toda repetición es una ofensa
Y toda su expresión es un olvido

Desdeñosa, semejante a los dioses
Yo seguiré luchando por mi suerte
Sin escuchar las espantadas voces
De los envenenados por la muerte

No necesito amar, absurdo fuera
Repetir el sermón de la montaña
Por eso he de llevar hasta que muera
Todo el odio inmortal que me acompaña






sábado, 17 de maio de 2008

Sei troppo bella, Tosca, e troppo amante


Hoje, no Teatro Nacional São Carlos, foi isto que se ouviu. Puccini, a retratar magistralmente o carácter trágico do ímpeto do amar.

Cavaradossi
Amaro sol per te m'era morire,
da te la vita prende ogni splendore,
all'esser mio la gioia ed il desire
nascon di te, come di fiamma ardore.
Io folgorare i cieli e scolorire
vedrò nell'occhio tuo rivelatore,
e la beltà delle cose più mire
avrà sol da te voce e colore.

A morte era-me amarga só por ti
e contigo a vida retoma o seu esplendor!
A alegria e o desejo do meu ser nascem de ti,
como o calor nasce da chama.
É nos teus olhos que verei
o fulgor e o descobrir dos céus,
e a beleza das coisas mais fabulosas
só de ti receberão voz e cor.

Tosca
Amor che seppe a te vita serbare,
ci sarà guida in terra, e in mar
nocchier... e vago farà il mondo riguardare.
Finché congiunti alle celesti sfere
dileguerem, siccome alte sul mare
a sol cadente,
nuvole leggere!...

O Amor que soube conservar a tua vida
servir-nos-á de guia e de timoneiro,
e fará parecer
vago o mundo
até que, unidos, nos dissipemos
nas esferas celestes, tal como
no mar, ao cair do sol,
fazem as nuvens ligeiras!...

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Tarte de Mirtilo


Nada há de errado com a Blueberry Pie. Simplesmente ninguém a quer.

Em My Bluberry Nights não vemos o Wong Kar Wai soberbo de Chungking Express, e, na realidade, encontramos algumas similitudes que nos remetem para a anterior obra prima do realizador. Natalie Portman na pele de uma legaly blonde viciada em jogo que exala charme, tal como a loira de Chungking, um polícia desesperado pela finitude do amor de Rachel Weisz (assim como o protagonista de Chungking era um polícia) e uma jovem naive (Norah Jones) que uma vez traída parte numa viagem por uma América repleta de figuras protótipo que a levam a concluir que mais do que ser outrem, pode ser simplesmente Elizabeth.

Ninguém quer a Blueberry Pie que sobra intacta todas as noites. Até que Jude Law e Norah Jones decidem partilhá-la. Nada há-de errado com a Blueberry Pie, e, afinal, há quem a queira.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

What I Have Lived For

Three passions, simple but overwhelmingly strong, have governed my life: the longing for love, the search for knowledge, and unbearable pity for the suffering of mankind. These passions, like great winds, have blown me hither and thither, in a wayward course, over a great ocean of anguish, reaching to the very verge of despair.
I have sought love, first, because it brings ecstasy - ecstasy so great that I would often have sacrificed all the rest of life for a few hours of this joy. I have sought it, next, because it relieves loneliness-that terrible loneliness in which one shivering consciousness looks over the rim of the world into the cold unfathomable lifeless abyss. I have sought it finally, because in the union of love I have seen, in a mystic miniature, the prefiguring vision of the heaven that saints and poets have imagined. This is what I sought, and though it might seem too good for human life, this is what- at last -I have found.
With equal passion I have sought knowledge. I have wished to understand the hearts of men. I have wished to know why the stars shine. And I have tried to apprehend the Pythagorean power by which number holds sway above the flux. A little of this, but not much, I have achieved.
Love and knowledge, so far as they were possible, led upward toward the heavens. But always pity brought me back to earth. Echoes of cries of pain reverberate in my heart. Children in famine, victims tortured by oppressors, helpless old people a burden to their sons, and the whole world of loneliness, poverty, and pain make a mockery of what human life should be. I long to alleviate this evil, but I cannot, and I too suffer.
This has been my life.
I have found it worth living, and would gladly live it again if the chance were offered me.
Bertrand Russell

sábado, 3 de maio de 2008

Café Muller 2

There are aesthetic emotions for which there are no corresponding thoughts, emotions that awaken the unconscious alone and that never touch the brain; emotions vague, indefinable, confused; emotions that wake whirlwinds and deep-sea hurricanes.

Do grito da cigarra

O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. Perdi a minha memória da morte da lacuna da perda do desastre. A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comigo o líirio da pequena praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia - e vi o mar reflectido no seu primeiro espelho. Imagina.
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo
.
Sophia de Mello Breyner Andresen, ao som de Carlos Paredes.


Café Muller

Third

Se as expectativas em relação à edição de um novo albúm dos ícones de Bristol do trip-hop dos anos 90 eram elevadas, após um interregno de quase uma década, é certo que o regresso de Beth Gibbons e seus homens veio confirmar que estes senhores ainda estão à altura de um Dummy.

Com um arranque a puxar para o electrónico com o single Machine Gun, Third presenteia-nos com uma interessante polifonia em que o eclectismo é pedra de toque. Consta que era essa a intenção, como confessou recentemente a vocalista da banda, e de facto, a evolução e transformação na continuidade reveste todo o albúm. A abrir com uns ritmos de bossa e uns trauteares brazilectos em "Silence", segue-se um delicioso "Hunter", talvez um dos grandes ex-libris de Third, a trazer à lembrança dos mais saudosistas "Glory Box". Outro ponto alto é certamente "Small" que conjuga o ondear dos violoncelos com os sons sintetizadores característicos do trip-hop.
Para além das sonoridades sempre pouco previsíveis, ouvir Beth Gibbons a declamar a angústia como ninguém - I can't deny what I've become / I'm just emotionally undone / I can't deny I can't be someone else (em "Magic Doors") - ou ainda - I'm worn, tired of my mind / I'm worn out, thinking of why I’m always so unsure (fechando com chave de ouro com "Threads") é, no mínimo, um chegar ao nosso âmago.
Possivelmente O albúm de 2008, até ao momento, rivalizando talvez apenas com Dig, Lazarus, Dig!!!, Devotion, Lookout Mountain, Lookout Sea e The Hungry Saw. Até porque não é qualquer um que tem frieza suficiente para assumir: I’m drifting in deep water / Alone with my self-doubting, again / Try not to struggle this time / For I will weather the storm (Deep Water).