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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Fugaz





' Os que tiveram o raro privilégio de tais sentimentos sofrem de qualquer coisa semelhante à demência; falam sem bastante coerência, sem modo humano, pronunciam palavras sem sentido e subitamente transformam todo o aspecto do rosto. Os alacres, ora tristes, ora lacrimejando, ora sorrindo, ora suspirando, estão verdadeiramente fora de si. Quando regressam a si, não sabem dizer onde estiveram, se no corpo ou fora do corpo, se vigilantes ou dormentes. Que viram, que disseram, que fizeram? Não se lembram, tudo se passou como entre nuvens, como num sonho. Sabem somente que foram felicíssimos durante a sua loucura. Deploram ter voltado a si, e nada mais desejam que a perpétua insânia. E dessa felicidade futura não gozaram mais do que uma ténue prova. '


É do amor, que fala a Loucura.


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

letra, som e riso

Enquanto o Outono não chega, deliciamo-nos com a música dos Vetiver (e o seu último disco Tight Knit), a estética nipónica de Kawabata (com Kyoto) e a ironia requintada de Woody, cujo excerto abaixo, extraído do hilariante Para acabar de vez com a cultura, tem dado o mote perfeito para os atrasados dias solarengos.

Depois da invasão dos Aliados, Hitler começou a ficar com o cabelo seco e eriçado. Isto era devido, quer ao êxito dos Aliados, quer ao conselho de Goebbels, que lhe dissera para o lavar todos os dias. Quando o general Guderian soube deste facto, imediatamente se deslocou da frente russa e disse ao Fuhrer que só devia lavar o cabelo, no máximo, três vezes por semana. Este era o procedimento seguido com grande sucesso pelo Estado-Maior nas duas últimas guerras. Hitler uma vez mais ultrapassou os seus generais e continuou a lavá-lo diariamente. Bormann ajudava Hitler nas lavagens e parecia estar sempre presente com um pente na mão. Deste modo, Hitler tornou-se dependente de Bormann e antes de se ver ao espelho queria sempre que Bormann o fizesse antes dele. Conforme os exércitos aliados avançavam a leste, o cabelo de Hitler piorava. Seco e desgrenhado, muitas vezes bramava durante horas sobre o belo corte de cabelo e barba que faria quando a Alemanha ganhasse a guerra e talvez mesmo uma engraxadela. Hoje compreendo que, de facto, nunca teve a intenção de o fazer.


As Memórias de Schmeed

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

o que é a civilização?

'Isto ajudara Diotima a descobrir em si a conhecida doença do homem contemporâneo, a que se chama civilização. É uma condição frustrante, cheia de sabão, ondas hertzianas, a excessiva linguagem cifrada das matemáticas e da química, a economia política, a investigação experimental e a incapacidade de convivência simples mas elevada entre os homens. E também as relações da nobreza de espírito, que ela conhecia, com a nobreza social, que exigiam a Diotima grande prudência e, apesar de alguns êxitos, lhe traziam grandes decepções, pareciam-lhe cada vez mais características não de uma época de cultura mas de um tempo de mera civilização. A civilização era, assim, tudo o que o seu espírito se sentia incapaz de controlar.'

Robert Musil in O homem sem qualidades

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

revolver 2

O fervedouro das ruas tem algo de desagradável, algo contra o qual a natureza humana se rebela. Estas centenas de milhares de pessoas, de todas as classes e de todos os tipos que aí se entrecruzam e se comprimem, não são por acaso homens, com as mesmas qualidades e capacidades, e com o mesmo interesse de serem felizes? . . . E não obstante, ultrapassam-se uns aos outros, apressadamente, como se nada tivessem em comum, nada a fazer entre si; não obstante, a única convenção que os une, subentendida, é que cada um mantenha a direita ao andar pelas ruas, a fim de que as duas correntes da multidão, que andam em direções opostas, não se choquem; não obstante, a ninguém ocorre dignar-se dirigir aos outros, ainda que seja apenas um olhar. A indiferença brutal, a clausura insensível de cada um nos próprios interesses privados torna-se tanto mais repugnante e ofensiva quanto maior é o número de indivíduos que se aglomeram num espaço reduzido.
Walter Benjamin

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

what about reading

Os seres humanos são animais conhecedores do facto de terem de morrer. Sabem que as suas vidas são modeladas tal como se modelam as histórias, com princípio, meio e fim, fim este inelutável. Penso que a leitura consiste, entre outras coisas, também em reconhecer e em encarar os sinais desse modelo. Lemos a vida tal como lemos os livros e a actividade da leitura é, de facto, uma questão de abrir caminho através de sinais e de textos a fim de entender com maior profundidade e clareza não só aquilo que neles descobrimos, mas também as nossas próprias situações, tanto na sua especificidade e historicidade como nas suas dimensões mais permanentes e inevitáveis.


Mesmo o mais feliz dos epílogos textuais não deixa de ser um fim, uma espécie de morte. Lemos, sabendo que são limitadas as nossas vidas de leitores desse texto particular e que, a cada palavra, mais nos aproximamos do final. Conquanto uma dada narrativa possa transmitir-nos a urgência de prosseguir até à respectiva conclusão, existe algo em nós que se rebela contra este impulso. Ansiamos por terminar uma história, conhecer-lhe o desenlace, sentir o deleite, a catarse ou seja o que for que nos aguarde no final, mas, ao mesmo tempo - e quanto mais prazer o livro nos proporcionar mais forte será tal sentimento - não desejamos que ela termine, queremos que prossiga para sempre. Os livros, porém, tal como as vidas, não continuam indefinidamente. É certo que se pode reler um livro, que se pode recomeçar, tal como Platão acreditava que as almas recomeçavam a viver; mas também é verdade que, tal como Heraclito porventura diria, a mesma pessoa nunca lê o mesmo livro duas vezes.


(...) Se um livro, uma história ou qualquer outro texto se assemelha a uma pequena vida, e se a leitura consome um tempo precioso dessa outra história que pensamos ser a nossa vida, então é preciso tirar o maior proveito possível da leitura, tal como tiramos partido da vida.


A leitura recorda-nos que todos os textos terminam numa página em branco e que aquilo que obtemos de cada texto é exactamente compensado por aquilo que damos. A capacidade, conhecimentos e entrega ao texto determinará para cada pessoa o género de experiência que aquele lhe proporciona. A aprendizagem da leitura de livros - ou de quadros ou de fitas cinematográficas - não se resume à mera aquisição da informação contida nos textos; é também aprender a ler e a escrever o texto da vida individual. Assim considerada, a leitura não constitui um mero exercício académico, mas uma maneira de se aceitar o facto de que a vida tem uma duração limitada e de que, seja qual for o deleite que colhamos dela, este terá de resultar da força do compromisso com que nos rodeia. Faremos bem em ler a vida com a mesma energia que pomos na aprendizagem da leitura de textos. Todas as pessoas passam por algumas experiências que dir-se-ão exigir mais do que uma dose superficial de entendimento.

Robert Scholes in Protocolos de Leitura

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Apoteose do disfarce

Os vaticínios mais ou menos apocalípticos de final de ano são sempre curiosos. Em geral, à revelia de se pressagiar um 'difícil ano económico', as perspectivas tendem a ser optimistas, e, talvez neste final de 2008, o mundo aguarde soluções como provavelmente não se via desde o final da 2ª Guerra Mundial. A verdade é que, se recordarmos palavras de Walter Benjamin escritas em 1955, as expectativas ingénuas esboroam-se e levam-nos a crer que a instabilidade, a insegurança e a anulação da efectiva liberdade voltam como novos slogans de uma sociedade que vive cada vez mais para o disfarce (já Obama diz que vai mandar reforços para o Afeganistão). A guerra, a guerra.


A crescente proletarização do homem contemporâneo e a crescente formação de massas são duas faces da mesma medalha. O fascismo tenta organizar as massas recentemente proletarizadas, sem tocar nas relações de propriedade que estas pretendem eliminar. O fascismo vê a sua salvação no facto de permitir às massas que se exprimam mas, de modo nenhum, que exerçam os seus direitos. As massas têm direito a exigir uma alteração das relações de propriedade; o fascismo pretende dar-lhes expressão, conservando essas relações. Por conseguinte, o fascismo acaba por introduzir uma estetização na vida política. À violência sobre as massas a quem, através do culto de um 'fuhrer', o fascismo impõe a subjugação, corresponde a violência que sofre um aparelho utilizado so serviço da produção de valores de culto.

Todos os esforços para introduzir uma estética na política culminam num ponto: a guerra. A guerra, e só a guerra, torna possível fazer de movimentos de massas em grande escala um objectivo, mantendo as relações de propriedade tradicionais. Do ponto de vista político, assim se formula a situação. Do ponto de vista da técnica, formula-se da seguinte forma: só a guerra possibilita a mobilização dos actuais meios técnicos, mantendo as relações de propriedade. É evidente que a apoteose fascista da guerra não utiliza este argumento. No manifesto de Marinetti, sobre a guerra colonial etíope, diz-se: 'Há vinte e sete anos que nós, futuristas, nos manifestamos contra o facto de se designar a guerra como antiestética... por conseguinte, declaramos: ... a guerra é bela porque fundamenta o domínio do homem sobre a maquinaria subjugada, graças às máscaras de gás, aos megafones assustadores, aos lança-chamas e tanques. A guerra é bela porque inaugura a sonhada metalização do corpo humano. A guerra é bela porque enriquece um prado florescente com as orquídeas de fogo das metralhadoras. A guerra é bela porque reúne numa sinfonia o fogo das espingardas, dos canhões, dos cessar-fogo, os perfumes e os odores da putrefacção. A guerra é bela porque cria novas arquitecturas, como a dos grandes tanques, a da geometria de aviões em formação, a das espirais de fumo de aldeias a arder, e muitas outras'.

Este manifesto tem a vatagem de ser claro. A estética da guerra actual apresenta-se-lhe da seguinte forma: se o aproveitamento natural das forças produtivas for travado pelo sistema de propriedade, então o aumento de recursos técnicos, de ritmo, de fontes de energia, será impelido a uma valorização não natural. É o que sucede na guerra que, com as suas destruições, demonstra que a sociedade não tinha maturidade suficiente para incorporar a técnica como órgão seu, e de que a técnica não estava suficientemente desenvolvida para dominar as suas forças sociais elementares. A guerra imperialista é determinada, nos seus mais terríveis aspectos, pela discrepância entre os poderosos meios de produção e o seu aproveitamento inadequado no processo produtivo (pelo desemprego e escassez de mercados). A guerra imperialista é uma revolta da técnica que reclama sob a forma de 'material humano' aquilo que a sociedade lhe retirou como material natural. Em vez de canalizar rios, conduz a corrente humana ao leito das suas trincheiras, em vez de lançar sementes dos seus aviões, lança bombas incendiárias sobre cidades e, como a guerra do gás, encontrou um meio de aniquilar a aura, de uma nova forma.

"Que a arte se realize, mesmo que o mundo deva perecer", diz o fascismo e, como Marinetti reconhece, espera que a guerra forneça a satisfação artística da percepção dos sentidos alterados pela técnica. Isto é, evidentemente, a consumação da 'l'art pour l'art'. A humanidade que, outrora, com Homero, era um objecto de contemplação para os deuses do Olimpo, é agora objecto de auto-contemplação. A sua auto-alienação atingiu um grau tal que lhe permite assistir à sua própria destruição, como a um prazer estético de primeiro plano.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O passeio dos livros

Esquerda, direita. Esquerda, direita. Lá andam eles mais uma vez. Os livros. Passeam-se mais uma vez os livros, como ornamento bonito de se exibir. Viajam para cá e para lá nas mãos e regaços dos transeuntes. Mas raros são os discretos, mais costumeiros os portentosos. Grandes e imponentes pedaços de pasta de papel compactada de títulos sonantes. Olho em frente e uma mulher dos seus 30 anos enverga um José Rodrigues dos Santos, com o orgulho de um Joyce, desfolhando as páginas de letras gordas e espaçadas com as suas trabalhadas unhas de gel. Ao lado, a antítese, como que uma defesa da verdadeira literatura perante essas odiosas cópias. Um distinto senhor percorre as últimas linhas de um A Viagem do Elefante, com o afagado semblante daquele que termina uma leitura. É curioso como podemos fazer um reconhecimento por um livro. No fundo, haverá algo mais revelador do que aqueles que escolhemos por nossa companhia? Penso no Cervantes que tenho na mala, também ele parece querer-me dar conversa.

sábado, 15 de novembro de 2008

feminino

Carlos Maria amava a conversação das mulheres, tanto quanto, em geral, aborrecia a dos homens. Achava os homens declamadores, grosseiros, cansativos, pesados, frívolos, chulos, triviais. As mulheres, ao contrário, não eram grosseiras, nem declamadoras, nem pesadas. A vaidade nelas ficava bem, e alguns defeitos não lhes iam mal; tinham, ao demais, a graça e a meiguice do sexo. Das mais insignificantes, pensava ele, há sempre alguma coisa a extrair.


Machado de Assis in 'Quincas Borba'

domingo, 26 de outubro de 2008

to be an author 2

Paul Valéry escreveu, em 1928, palavras consideravelmente vanguardistas que, lidas à luz da contemporaneidade, fazem-nos reflectir no potentado estético que é a era do mp3. Ora vejam:

Pouvoir choisir le moment d'une jouissance, la pouvoir goûter quand elle est non seulement désirable par l'esprit, mais exigée et comme déjà ébauchée par l'âme et par l'être, c'est offrir les plus grandes chances aux intentions du compositeur, car c'est permettre à ses créatures de revivre dans un milieu vivant assez peu différent de celui de leur création. Le travail de l'artiste musicien, auteur ou virtuose, trouve dans la musique enregistrée la condition essentielle du rendement esthétique le plus haut.

A possibilidade de transportar música, de ouvirmos o que queremos, onde queremos, quando queremos, constitui uma restituição do deleite da própria criação, que até outrora só ao criador podia pertencer. Por outro lado, mais do que um desejo, há uma efectiva necessidade sensível e sensorial de ouvir (isto ou aquilo) num determinado momento, exigência essa que, quando saciada, produz, com efeito, um prazer estético no seu mais elevado grau. É uma possibilidade de transformação e de atribuição de sentido até ao mais fútil dos momentos:

Il sera merveilleusement doux de pouvoir changer à son gré une heure vide, une éternelle soirée, un dimanche infini, en prestiges, en tendresses, en mouvements spirituels.

Abençoado IPod, que já nos proporcionaste tantas destas aestesis.

sábado, 25 de outubro de 2008

to be an author

The passion of all writing was the poet's desire to 'describe' the hallucinated 'picture in your mind with all its vivid colors, the light and the shade', in order to strike the gentle reader like an electric shock.

E. Hoffmann

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O momento oportuno

A beleza de Virgília chegara, é certo, a um alto grau de apuro, mas nós éramos substancialmente os mesmos, e eu, à minha parte, não me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa diferença?

A razão não podia ser outra senão o momento oportuno. Não era oportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estávamos para o nosso amor: distinção fundamental. Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo, dois anos depois do beijo.


Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

dá-me 12

Hoje li no JL que uma investigadora polaca de Linguística Cognitiva fez uma tese de doutoramento na qual apresenta a elencagem dos termos mais usados em cerca de 254 fados, alegando estar aqui subjacente a génese da cultura portuguesa. Ora se veja, se não é verdade se nos não regemos por estas 12 palavras - amor, paixão, ternura, amargura, dor, mágoa, pena, saudade, tristeza, destino, fado, sorte.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

a minha alma foi sempre assim, um espaço oco

Lê-se na edição deste mês da revista Ler um brilhante texto de José Eduardo Agualusa, que, encarnando Pessoa, faz uma breve reflexão, em tom sempre metafísico e, não obstante, coloquial, sobre o pensar-sentir pessoano, nas suas possíveis e múltiplas tranversalidades. E se daqui inferimos a intemporalidade humanista patente nas palavras de P, deslumbramo-nos igualmente com a genialidade do autor d'O vendedor de passados.

Ah, o tédio de ser Pessoa. Fui-o por distração, é verdade, como as pedras no seu sossego de pedras, e a erva crescendo e sendo erva, e passarem pássaros neste límpido céu de Verão. Tentei ser muitos para escapar de ser nenhum, e não consegui.

Chama-se alma ao interior oco de uma arma de fogo, que vai da parte anterior da câmara da carga até à boca - ou seja, é por onde sai a bala. A minha alma foi sempre algo assim, um espaço oco por onde disparava os sentimentos com que atingia, ou tentava atingir, o coração dos outros.

Ninguém consegue tornar-se um bom cantor, um bom dançarino, um bom pintor, um bom amante enquanto não se esquece de que está cantando, dançando, pintando ou amando. Entregar-se implica esquecer-se de si. Eu nunca me entreguei por completo à vida. Pensei-a sempre, e pensar demais a vida é não a viver.

Talvez tudo isto lhe pareça contraditório e confuso, e ainda bem. É contraditório e confuso e além disso estou morto. Bastante morto. Não exija coerência a um morto. A um morto exige-se que se decomponha o mais depressa possível, ou seja, que se desorganize. Estar morto é render-se por fim à entropia, desistir. Ah, como sabe bem desistir! Ao longo da vida preparei-me muito para a morte. Fui um campeão em desistência. Comecei, bastante jovem, por desistir do amor e da aventura; desisti das mulheres e depois da humanidade inteira (que é o que acontece normalmente aos homens que desistem das mulheres); desisti do dinheiro e da glória; desisti de uma carreira, inclusive a literária. Quando por fim a morte me estendeu a mão foi já sem lastro, sem um pensamento a prender-me, que me deixei ir.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

debruçando-se da escarpa falésia

Há dias em que tudo o que vejo me parece pleno de significados: mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir por palavras, mas que precisamente por isso se me apresentam como decisivas. São anúncios ou presságios que me dizem respeito a mim mesmo e ao mundo ao mesmo tempo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas o que acontece cá dentro, no fundo; e do mundo não um facto singular qualquer mas o modo de ser geral de tudo. Compreendem pois a minha dificuldade em falar disto, a não ser por alusões.

Italo Calvino in Se numa noite de Inverno um viajante


quinta-feira, 5 de junho de 2008

Still ill

Estou a Morrisseyzar-me e Oscar Wilderizar-me fortemente. Hoje percebo que não é mau de todo.

"Principiarei por dizer que me censuro deveras. Censuro-me, sim, enquanto aqui sentado nesta sela escura, infeliz e arruinado, com o meu fato de presidiário. Durante as noites angústia, inquietas, perturbadas, e durante os monótonos dias de sofrimento, é a mim próprio que me censuro. E censuro-me por ter aceitado uma amizade alheia à inteligência, cujo fim primordial não era a criação e contemplação de coisas belas e que acabou por dominar a minha vida. Logo desde o início se cavou um abismo fundo entre nós dois. Não compreendias que um artista, e em especial um artista como eu (isto é, cujo valor de trabalho dependia da intensificação da personalidade), requer para o desenvolvimento da sua arte a solidariedade de ideias, uma atmosfera intelectual, sossego, paz, solidão. Admiravas as minhas obras depois de concluídas. Regozijavas-te com o êxito brilhante das noites de estreia, com os esplendorosos banquetes que se seguiam. Tinhas orgulho, e era natural, de ser amigo íntimo de um artista tão notável. Mas nunca te compenetraste das condições necessárias para a produção das obras de arte. Não me sirvo de frases de retórica exagerada, mas emprego termos de pura sinceridade quando te recordo que, durante todo esse tempo em que andámos juntos, eu nunca escrevi uma simples linha. Fosse onde fosse, a minha vida, enquanto estiveste a meu lado, foi totalmente estéril, improdutiva. E tu, lastimo, tu estavas sempre a meu lado, com raríssimos intervalos".


She told me she loved me, which means, she must be insane
I've had my face dragged in, fifteen miles of shit,
And I do not, And I do not , And I do not like it
So how can anybody say,
They know how I feel,
The only one around here who is me,
Is me
They said they respect me, which means, their judgement is crazy
I've had my face dragged in, Fifteen miles of shit,
And I do not, And I do not, And I do not like it
So how can anybody say,
They know how I feel,
When they are they, And only I am I
He said he wants to befriend me, which means, he can't possibly know me
The voices of the real, and the imagined cry,
The future is passing you by,
The future is passing you by
So how can anybody possibly think they know how I feel,
Everybody look,
See pain,
And walk away.



sábado, 31 de maio de 2008

Do egocentrismo exacerbado

Porque a fuga da realidade não é possível e porque tudo se vai tornando um fardo. Egocentrismo? Talvez. Tédio? Melancolia.

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

sábado, 3 de maio de 2008

Do grito da cigarra

O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. Perdi a minha memória da morte da lacuna da perda do desastre. A omnipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comigo o líirio da pequena praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia - e vi o mar reflectido no seu primeiro espelho. Imagina.
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo
.
Sophia de Mello Breyner Andresen, ao som de Carlos Paredes.


quarta-feira, 23 de abril de 2008

O homem sem qualidades

Foi capa do último Ipsílon e, corroboro-o, muito merecidamente. A sinopse em tom de crítica (salve não entregue na íntegra àquela amostra de saber num grau pseudo elevado ao cubo da Alexandra Lucas Coelho) aguçou o desejo, e o aval de nomes como Kundera, Camus ou Kraus moveram-me ao El Corte para comprar a mais recente tradução para a língua portuguesa, pela Dom Quixote, d' O Homem Sem Qualidades de Robert Musil. Um calhamaço gigante com títulos sugestivos para cada capítulo, seguido de um segundo tomo também ele volumosamente avantajado, em que o desarme humano é uma constante, nomeadamente mediante pérolas literário-existencialistas, como esta:

E como a posse de qualidades pressupõe uma certa alegria pela sua realidade, é legítimo prever que alguém a quem falte o sentido de realidade até em relação a si próprio possa um belo dia, sem saber como, encarar-se como um homem sem qualidades.

E porque as qualidades não nos pertecem, mas nós é que a elas pertencemos, aqui fica uma sugestão, para momentos de pura fruição e deleite ataráxico.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Ligeia

Eis aí a vontade que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade em todo o seu vigor? Pois Deus mais não é do que uma imensa vontade que penetra todas as coisas pela natureza do seu esforço aplicado. O homem não se rende aos anjos, nem à morte se rende inteiramente, a não ser pela fraqueza da sua débil vontade.

Joseph Glanvill

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

For sentimental reasons, irrational reasons

Para ouvir, Nat King Cole. Para ler, Dumas e a sua Marguerite Gautier.

"Ia de véu, é certo; mas, por muito espesso que fosse, dois anos antes não precisaria de vê-la para a reconhecer; adivinhava-a. Mas isso não impediu o meu coração de palpitar ao saber que era ela: e os dois anos passados sem a ver e todos os seus resultados desvaneceram-se como o fumo, só com o roçar do seu vestido"