sexta-feira, 4 de junho de 2010
Fugaz
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
letra, som e riso
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
o que é a civilização?
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
revolver 2
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
what about reading
Mesmo o mais feliz dos epílogos textuais não deixa de ser um fim, uma espécie de morte. Lemos, sabendo que são limitadas as nossas vidas de leitores desse texto particular e que, a cada palavra, mais nos aproximamos do final. Conquanto uma dada narrativa possa transmitir-nos a urgência de prosseguir até à respectiva conclusão, existe algo em nós que se rebela contra este impulso. Ansiamos por terminar uma história, conhecer-lhe o desenlace, sentir o deleite, a catarse ou seja o que for que nos aguarde no final, mas, ao mesmo tempo - e quanto mais prazer o livro nos proporcionar mais forte será tal sentimento - não desejamos que ela termine, queremos que prossiga para sempre. Os livros, porém, tal como as vidas, não continuam indefinidamente. É certo que se pode reler um livro, que se pode recomeçar, tal como Platão acreditava que as almas recomeçavam a viver; mas também é verdade que, tal como Heraclito porventura diria, a mesma pessoa nunca lê o mesmo livro duas vezes.
(...) Se um livro, uma história ou qualquer outro texto se assemelha a uma pequena vida, e se a leitura consome um tempo precioso dessa outra história que pensamos ser a nossa vida, então é preciso tirar o maior proveito possível da leitura, tal como tiramos partido da vida.
A leitura recorda-nos que todos os textos terminam numa página em branco e que aquilo que obtemos de cada texto é exactamente compensado por aquilo que damos. A capacidade, conhecimentos e entrega ao texto determinará para cada pessoa o género de experiência que aquele lhe proporciona. A aprendizagem da leitura de livros - ou de quadros ou de fitas cinematográficas - não se resume à mera aquisição da informação contida nos textos; é também aprender a ler e a escrever o texto da vida individual. Assim considerada, a leitura não constitui um mero exercício académico, mas uma maneira de se aceitar o facto de que a vida tem uma duração limitada e de que, seja qual for o deleite que colhamos dela, este terá de resultar da força do compromisso com que nos rodeia. Faremos bem em ler a vida com a mesma energia que pomos na aprendizagem da leitura de textos. Todas as pessoas passam por algumas experiências que dir-se-ão exigir mais do que uma dose superficial de entendimento.
Robert Scholes in Protocolos de Leitura
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Apoteose do disfarce
Este manifesto tem a vatagem de ser claro. A estética da guerra actual apresenta-se-lhe da seguinte forma: se o aproveitamento natural das forças produtivas for travado pelo sistema de propriedade, então o aumento de recursos técnicos, de ritmo, de fontes de energia, será impelido a uma valorização não natural. É o que sucede na guerra que, com as suas destruições, demonstra que a sociedade não tinha maturidade suficiente para incorporar a técnica como órgão seu, e de que a técnica não estava suficientemente desenvolvida para dominar as suas forças sociais elementares. A guerra imperialista é determinada, nos seus mais terríveis aspectos, pela discrepância entre os poderosos meios de produção e o seu aproveitamento inadequado no processo produtivo (pelo desemprego e escassez de mercados). A guerra imperialista é uma revolta da técnica que reclama sob a forma de 'material humano' aquilo que a sociedade lhe retirou como material natural. Em vez de canalizar rios, conduz a corrente humana ao leito das suas trincheiras, em vez de lançar sementes dos seus aviões, lança bombas incendiárias sobre cidades e, como a guerra do gás, encontrou um meio de aniquilar a aura, de uma nova forma.
"Que a arte se realize, mesmo que o mundo deva perecer", diz o fascismo e, como Marinetti reconhece, espera que a guerra forneça a satisfação artística da percepção dos sentidos alterados pela técnica. Isto é, evidentemente, a consumação da 'l'art pour l'art'. A humanidade que, outrora, com Homero, era um objecto de contemplação para os deuses do Olimpo, é agora objecto de auto-contemplação. A sua auto-alienação atingiu um grau tal que lhe permite assistir à sua própria destruição, como a um prazer estético de primeiro plano.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
O passeio dos livros
sábado, 15 de novembro de 2008
feminino
domingo, 26 de outubro de 2008
to be an author 2
Abençoado IPod, que já nos proporcionaste tantas destas aestesis.
sábado, 25 de outubro de 2008
to be an author
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
O momento oportuno
A razão não podia ser outra senão o momento oportuno. Não era oportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estávamos para o nosso amor: distinção fundamental. Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo, dois anos depois do beijo.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
dá-me 12
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
a minha alma foi sempre assim, um espaço oco
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
debruçando-se da escarpa falésia
Há dias em que tudo o que vejo me parece pleno de significados: mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir por palavras, mas que precisamente por isso se me apresentam como decisivas. São anúncios ou presságios que me dizem respeito a mim mesmo e ao mundo ao mesmo tempo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas o que acontece cá dentro, no fundo; e do mundo não um facto singular qualquer mas o modo de ser geral de tudo. Compreendem pois a minha dificuldade em falar disto, a não ser por alusões.
Italo Calvino in Se numa noite de Inverno um viajante
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Still ill
"Principiarei por dizer que me censuro deveras. Censuro-me, sim, enquanto aqui sentado nesta sela escura, infeliz e arruinado, com o meu fato de presidiário. Durante as noites angústia, inquietas, perturbadas, e durante os monótonos dias de sofrimento, é a mim próprio que me censuro. E censuro-me por ter aceitado uma amizade alheia à inteligência, cujo fim primordial não era a criação e contemplação de coisas belas e que acabou por dominar a minha vida. Logo desde o início se cavou um abismo fundo entre nós dois. Não compreendias que um artista, e em especial um artista como eu (isto é, cujo valor de trabalho dependia da intensificação da personalidade), requer para o desenvolvimento da sua arte a solidariedade de ideias, uma atmosfera intelectual, sossego, paz, solidão. Admiravas as minhas obras depois de concluídas. Regozijavas-te com o êxito brilhante das noites de estreia, com os esplendorosos banquetes que se seguiam. Tinhas orgulho, e era natural, de ser amigo íntimo de um artista tão notável. Mas nunca te compenetraste das condições necessárias para a produção das obras de arte. Não me sirvo de frases de retórica exagerada, mas emprego termos de pura sinceridade quando te recordo que, durante todo esse tempo em que andámos juntos, eu nunca escrevi uma simples linha. Fosse onde fosse, a minha vida, enquanto estiveste a meu lado, foi totalmente estéril, improdutiva. E tu, lastimo, tu estavas sempre a meu lado, com raríssimos intervalos".
She told me she loved me, which means, she must be insane
sábado, 31 de maio de 2008
Do egocentrismo exacerbado
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles
sábado, 3 de maio de 2008
Do grito da cigarra
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
O homem sem qualidades
Foi capa do último Ipsílon e, corroboro-o, muito merecidamente. A sinopse em tom de crítica (salve não entregue na íntegra àquela amostra de saber num grau pseudo elevado ao cubo da Alexandra Lucas Coelho) aguçou o desejo, e o aval de nomes como Kundera, Camus ou Kraus moveram-me ao El Corte para comprar a mais recente tradução para a língua portuguesa, pela Dom Quixote, d' O Homem Sem Qualidades de Robert Musil. Um calhamaço gigante com títulos sugestivos para cada capítulo, seguido de um segundo tomo também ele volumosamente avantajado, em que o desarme humano é uma constante, nomeadamente mediante pérolas literário-existencialistas, como esta:E como a posse de qualidades pressupõe uma certa alegria pela sua realidade, é legítimo prever que alguém a quem falte o sentido de realidade até em relação a si próprio possa um belo dia, sem saber como, encarar-se como um homem sem qualidades.
E porque as qualidades não nos pertecem, mas nós é que a elas pertencemos, aqui fica uma sugestão, para momentos de pura fruição e deleite ataráxico.
terça-feira, 8 de abril de 2008
Ligeia
Joseph Glanvill
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
For sentimental reasons, irrational reasons
"Ia de véu, é certo; mas, por muito espesso que fosse, dois anos antes não precisaria de vê-la para a reconhecer; adivinhava-a. Mas isso não impediu o meu coração de palpitar ao saber que era ela: e os dois anos passados sem a ver e todos os seus resultados desvaneceram-se como o fumo, só com o roçar do seu vestido"