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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Fugaz





' Os que tiveram o raro privilégio de tais sentimentos sofrem de qualquer coisa semelhante à demência; falam sem bastante coerência, sem modo humano, pronunciam palavras sem sentido e subitamente transformam todo o aspecto do rosto. Os alacres, ora tristes, ora lacrimejando, ora sorrindo, ora suspirando, estão verdadeiramente fora de si. Quando regressam a si, não sabem dizer onde estiveram, se no corpo ou fora do corpo, se vigilantes ou dormentes. Que viram, que disseram, que fizeram? Não se lembram, tudo se passou como entre nuvens, como num sonho. Sabem somente que foram felicíssimos durante a sua loucura. Deploram ter voltado a si, e nada mais desejam que a perpétua insânia. E dessa felicidade futura não gozaram mais do que uma ténue prova. '


É do amor, que fala a Loucura.


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Correspondência para o Sul




' Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
Foi Coimbra. Foi esta paisagem triste, triste,
A cuja influência a minha alma não resiste.
Queres noticias? Queres que os meus nervos falem? '

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Parado



Fico parado a olhar, não escrevo. Nunca escrevo.

segunda-feira, 1 de março de 2010



" I woke up with the power out,
not really something to shout about. "



terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Fragmentos de viagem



" Uma fronteira é um rio entre um país e o longe; eu já passei fronteiras que ficavam entre guitarra e noite, entre ternura e mágoa; o meu país é uma fronteira violado entre um pinheiro e a lua, entre silêncio e pedras”. "













" Amanhã não estaremos já neste lugar. Amanhã, a cidade não terá já o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti escrever em cada árvore o teu nome verde.
Amanhã
outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos
dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo, um nome
loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno."





São três da manhã, o rádio tem quarenta anos, lança uma luz vermelha, perscruta a noite, acompanha o meu gato.

Em bom comprimento de onda antigo, assinala agora o fim de transmissão de um posto búlgaro, ou libanês.
Fulminado. Desligo-o, vou-me deitar.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Carris


Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros


Mário Cesariny

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

letra, som e riso

Enquanto o Outono não chega, deliciamo-nos com a música dos Vetiver (e o seu último disco Tight Knit), a estética nipónica de Kawabata (com Kyoto) e a ironia requintada de Woody, cujo excerto abaixo, extraído do hilariante Para acabar de vez com a cultura, tem dado o mote perfeito para os atrasados dias solarengos.

Depois da invasão dos Aliados, Hitler começou a ficar com o cabelo seco e eriçado. Isto era devido, quer ao êxito dos Aliados, quer ao conselho de Goebbels, que lhe dissera para o lavar todos os dias. Quando o general Guderian soube deste facto, imediatamente se deslocou da frente russa e disse ao Fuhrer que só devia lavar o cabelo, no máximo, três vezes por semana. Este era o procedimento seguido com grande sucesso pelo Estado-Maior nas duas últimas guerras. Hitler uma vez mais ultrapassou os seus generais e continuou a lavá-lo diariamente. Bormann ajudava Hitler nas lavagens e parecia estar sempre presente com um pente na mão. Deste modo, Hitler tornou-se dependente de Bormann e antes de se ver ao espelho queria sempre que Bormann o fizesse antes dele. Conforme os exércitos aliados avançavam a leste, o cabelo de Hitler piorava. Seco e desgrenhado, muitas vezes bramava durante horas sobre o belo corte de cabelo e barba que faria quando a Alemanha ganhasse a guerra e talvez mesmo uma engraxadela. Hoje compreendo que, de facto, nunca teve a intenção de o fazer.


As Memórias de Schmeed

domingo, 15 de março de 2009

o fastio dos dias

Eles estão saturados. Eles estão a sufocar. Eles estão enfastiados. Eles estão a diluir-se. Eles estão fartos. Eles estão a culminar. Eles estão entediados. Eles estão a extravasar o limiar do suportável. Eles estão esgotados. Eles estão a fingir que nada sentem. Eles estão angustiados. Eles estão a morrer, mais, a cada dia. Eles estão tensos. Eles estão a consumir-se. Eles estão presos. Eles estão a conter-se. Eles estão enclausurados. Eles estão a pedir ajuda. Até quando, até quando vai a doença moer-vos?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

palavra aberta

A palavra, enquanto encadeamento aparentemente aleatório de letras disperas, é o modo por excelência de organização do mundo. Não é sistema binário, puramente virtual, definido de uma vez para sempre, fiel a um só sentido. A palavra é plurívoca, aberta sempre ao não-dito, impregne de implicações, de temores, de seguranças, de fascínios, de delírios. Por isso mesmo, é sempre singular o momento da expressão, como que momento que se institui no espaço e no tempo, para o marcar de forma indelével. A expressão constitui-se acontecimento, tanto para aquele que diz, como para aquele que, recebendo, sofre o seu efeito e aceita a passagem do testemunho. A expressão instaura a retroacção, mas, sobretudo, a reciprocidade. É o momento do eu e do outro, do eu e do tu. A expressão é o acontecimento do nós.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

revolver

Há dias em que tudo o que queremos é o afago da Isobel Campbell e do Mark Lanegan.

and after all, don't feel like nothing
like walking away
like a mouth full of rain
I'm holding on
'cause you're my revolver
and I dreamed of ending
and flying away




(Esta é a melhor versão disponível no You Tube, infelizmente sem o Lanegan).

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

pró-forma

O despertador finge-se cool ao som de 'Absolutely Cuckoo'. Hoje toca cedo porque decidi contornar o ócio matinal, apanágio das manhãs de Inverno. Levanto-me e, instantaneamente ligo a televisão. Séries norte-americanas, como prato do dia (manhã, tarde, noite). Mas leves, que ao acordar não apetece ver o agente Cooper e afins. 09h20, devia ir fazer exercício (primeiro o emocional, depois o físico). A indumentária, ao sair de casa, surpreende-me. Burguesinha ocidental. Uma t-shirt verde/azul marinho com o símbolo da Adidas ('mas por que raio tens isto?'), umas calças justas e uns ténis Nike à la Amy Winehouse em ruas de Picadilly City. Eles não me pagaram a publicidade. Nem tampouco me lembro de me alugar no e-Bay como spot. Pró-forma. Hoje vesti-me pró-forma, como a miúda da periferia de Paris, ou do centro de Tóquio. Formatada.
Mas, curiosamente, entro no carro (burguesa ocidental) e penso-me, à revelia da indumentária de hoje, perfeito cliché woodyallenesco - tenho sessões de psicoterapia, leio McLuhan, vejo Bergman e rio-me da ironia que é ter medo da intimidade. Infelizmente não vivo em Manhattan. Nem tudo o que é pró-forma é completo.

sábado, 25 de outubro de 2008

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

the freaks 2

Pouco relevante, mas hoje estou no mood adolescente de fazer disto um diário. Por cá a brilhante saga de Brás Cubas terminou e consta que afinal terei companhia para a Aimee Mann.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A vida não parece tão estúpida quando se acorda após uma boa noite de sono, se entra no carro e começa a dar Justice, se vai à livraria habitual (daquelas cujo dono é um verdadeiro apaixonado por livros) e se vem com as Memórias Póstumas de Brás Cubas numa mão e um queque na outra.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

smile

Uma das idiossincrasias mais fantásticas do jazz é a sua capacidade de, por melodias perfeitas, tratamudear (ou dizer com toda a minúcia das sílabas) as palavras de que todos temos carência de escutar e, não raras vezes, pudor de assumir. Lembro-me de aprender isso, primeiro com os instrumentais de Coltrane (esse espasmo inicial) e, mais tarde, sobretudo com Ella, de quem ainda hoje recebo sempre com semblante extasiado um Things are lookin' up.
Hoje, num final de tarde agradavelmente solarengo, cruzei-me, como se de um primeiro contacto se tratasse, com umas das singularidades maiores do jazz contemporâneo no que ao female vocal diz respeito, o mais belo albúm de Madeleine Peyroux, 'Half the Perfect World'. E palavras como as que a norte-americana declama em Smile não poderiam ter vindo em melhor altura - Smile, though your heart is aching, smile, even though is breaking, when there are clouds in the sky, you get by, if you smile trough your fear and sorrow, smile, and maybe tomorrow, you'll see the sun come shining through for you.
E, de facto, I'll find that life is still worthwhile.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Ele bateu com suavidade, e, com um sorriso algo envergonhado, perguntou: "Obras da literatura mundial?". "Sim, sim". Pela primeira vez em três anos senti que estava a ter uma cadeira harvardiana. Horas mais tarde concluí, porém, que acho que já não sei escrever ficção.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Hoje vi um rapaz com uma t-shirt dos The Jacksons na faculdade. E pensei, grosseiramente, que o Durex não tinha sido suficientemente eficaz.

domingo, 21 de setembro de 2008

Correspondência para o Norte


" O Inverno passou há meses, está sol e calor sempre, e a realidade passou a ser a de um Porto árido e inóspito diluído da identidade que eu concebia, sobram as memórias quasi alucinadas do que era...e sobram claro os sítios e respectivas pessoas que permanecem invariavelmente da mutabilidade ambiental dos sítios. Lisboa, a minha cidade, e o sul, têm uma identidade completamente diferente. Cá está sempre calor e sol mesmo que não esteja, é uma espécie de terminal para onde flúi e estagna tudo, é o terminal das linhas de comboio, a decadência arqueológica industrial…um cenário muito gráfico da degradação emocional da melancolia, e uma pessoa instala-se na impessoalidade. Cá o ritual do café é mais uma deambulação que um aconchego, e quando sair aqui do PC, vou descer os 4 andares do meu prédio arte-decó à Estado Novo, andar por entre ruas com prédios monolíticos à Estado Novo, com o tecnocrata cigarro, e transitar indiferentemente depois para as mourarias e alfamas onde eléctricos amarelos dobram esquinas a chiar - definitivamente isto não é o Porto, o norte...lembram-se do «Degredo do Sul» ? "



tempo...





" tens de fazer as pazes com a tua cidade de luz branca. o porto é um novelo romântico, lúgubre mas doentio.... "

e novamente o tempo...

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

do ser pequenino

Ouve-se mais uma notícia sobre a falência do americano Lehman Brothers à medida que de semblante carrancudo se mete mais uma colher de sopa na boca. "Ah ah, isto está muito mau. Isto vai voltar a ser como era aí há uns anos, com as taxas de juro a 15%". Nova colherada. Responde-se - "isto vai ser como em 29, aposto". "Espero que não, mas não me admiraria", é retorquido. Leva o copo à boca, e suspira, mais uma vez. O mundo está em colapso, mas o resto da noite passa-se a discutir a boa equipa do FC Porto, e o fracasso do Benfica.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008


Entrei no autocarro, numa zona portuária, Lisboa oriental. à volta há silos, armazens, fábricas, arqueologia operária, caminhos-de-ferro. Está sol, luz, e calor, uma manhã agradável, em que as outras pessoas trabalham. Ele percorre a avenida larga, as placas metálicas da carroçaria tremem, a caixa automática acelera com rigidez, gemendo, lentamente, disparam válvulas pneumáticas. A avenida é ampla e tem poucos carros, anda-se rápido e não há paragens, o autocarro transporta responsavelmente os passageiros naquela hora improvável de uma quase hora-de-almoço. Improvável também é o que eu lá faço, provando rotinas que não me pertencem, sonolento, mal conseguindo percepcionar lucidamente os elementos daquelas deslocações, distraído, letargico e alucinado num contexto tão saudável. Passa uma lambreta de forma errática à frente, nem olho para ela. Ouve-se a caixa a arranhar, freio pneumático;

- Ainda ha bocado ficou um debaixo do 28, no Oriente - a expressão dele é a de quem diligentemente despacha o serviço para poder ir almoçar, fala para mim.

" ficou um debaixo do 28 " ; "ali, há bocado..."

Ao conforto do mundanismo daquela manhã FM junta-se o elemento da morte de alguém no asfalto urbano, acidente de carro e destroços e sangue misturado em oleo, motas da polícia. O cenário da manhã mundana fica mais real, os elementos tornam-se momentaneamente mais perceptiveis, luz é reflectida dos vidros e metais exteriores, reflexão leve e abstracta daquela composição. Momentos depois já se retomou a serenidade, e a situação parece rotineiramente agradável.
" Olhe, hoje está bom tempo! "
Ele tem razão, está uma manhã bastante agradável realmente.