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domingo, 26 de outubro de 2008

to be an author 2

Paul Valéry escreveu, em 1928, palavras consideravelmente vanguardistas que, lidas à luz da contemporaneidade, fazem-nos reflectir no potentado estético que é a era do mp3. Ora vejam:

Pouvoir choisir le moment d'une jouissance, la pouvoir goûter quand elle est non seulement désirable par l'esprit, mais exigée et comme déjà ébauchée par l'âme et par l'être, c'est offrir les plus grandes chances aux intentions du compositeur, car c'est permettre à ses créatures de revivre dans un milieu vivant assez peu différent de celui de leur création. Le travail de l'artiste musicien, auteur ou virtuose, trouve dans la musique enregistrée la condition essentielle du rendement esthétique le plus haut.

A possibilidade de transportar música, de ouvirmos o que queremos, onde queremos, quando queremos, constitui uma restituição do deleite da própria criação, que até outrora só ao criador podia pertencer. Por outro lado, mais do que um desejo, há uma efectiva necessidade sensível e sensorial de ouvir (isto ou aquilo) num determinado momento, exigência essa que, quando saciada, produz, com efeito, um prazer estético no seu mais elevado grau. É uma possibilidade de transformação e de atribuição de sentido até ao mais fútil dos momentos:

Il sera merveilleusement doux de pouvoir changer à son gré une heure vide, une éternelle soirée, un dimanche infini, en prestiges, en tendresses, en mouvements spirituels.

Abençoado IPod, que já nos proporcionaste tantas destas aestesis.

sábado, 7 de junho de 2008

Still ill ou da sanidade de espírito

A doença é muito provavelmente uma virtude. Sempre percebi que o olhar sobre o mundo é oscilante, mas, não obstante, sempre o pretendi, em última instância o mais humanisticamente real possível. No limbo entre o idealismo e o pragmatismo, entre a total elevação, e não raras vezes, pretensiosa alienação do mundo, e a descrença num sólido conjunto de princípios ético-morais, superiores à efemeridade, está efectivamente, e hoje digo-o sem dúvidas, a visão mais equilibrada, genuína, sã e humanística que um ser humano na sua vã existência pode ter.

Foi à luz de grandes pensadores que fui chegando, passo a passo trémulo, a esta conclusão. Desde o fascinante Sócrates, descalço e de simples trajes, sem saber ler nem escrever numa sociedade elitista, condenado à morte injustamente por "dar à luz" a capacidade de interrogação do outro, passando pelo próprio Cristo, que à revelia do culto em seu torno gerado, nos legou máximas de vida e algumas das mais belas parábolas conhecidas no mundo ocidental, e, por fim (the last, but not the least) a Modernidade, os teóricos das Luzes. Aqui, entre muitos outros, podemos relembrar Kant que à civilização deixou uma das mais belas e densas afirmações de que há memória na História: age apenas segundo uma máxima tal que possas querer ao mesmo tempo que se torne lei universal.

Ainda retomando a Antiguidade, o antídoto perfeito para a salvaguarda do espírito pode ser também ele encontrado em Séneca. Mais do que doutrinar ou manipular, ensinou o valor da prática do bem, da perenidade da boa, aceitável e matricial natureza humana e do compromisso do indivíduo com a humanidade e com a moral. Estava então em condições de afirmar que o laço mais forte a prender-te à prática da virtude é este: comprometeste-te a ser um homem de bem.

Compromisso este com os princípios, com os outros, mas sobretudo consigo mesmo. Foi e é este ainda o legado maior da filosofia, que mais do que teoria, que mais do que disciplina,se afigura sobretudo como modo de vida.

Hoje estou certa de que mais do que a pretensão de ser popular numa sociedade do show business como a nossa, em que um dia se está dentro e noutro fora, em que um dia se é amado, noutro odiado, o melhor é mesmo que, chegando ao abismo, se retome o fôlego e se aja, não hedonisticamente, mas, a partir do eu, se viva para o mundo.

Acho que, não ingenuamente, é isto que pretendo ser, e, retomando Wilde, só posso rematar dizendo que só compreendendo o que sou é que eu encontro algum conforto.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

What I Have Lived For

Three passions, simple but overwhelmingly strong, have governed my life: the longing for love, the search for knowledge, and unbearable pity for the suffering of mankind. These passions, like great winds, have blown me hither and thither, in a wayward course, over a great ocean of anguish, reaching to the very verge of despair.
I have sought love, first, because it brings ecstasy - ecstasy so great that I would often have sacrificed all the rest of life for a few hours of this joy. I have sought it, next, because it relieves loneliness-that terrible loneliness in which one shivering consciousness looks over the rim of the world into the cold unfathomable lifeless abyss. I have sought it finally, because in the union of love I have seen, in a mystic miniature, the prefiguring vision of the heaven that saints and poets have imagined. This is what I sought, and though it might seem too good for human life, this is what- at last -I have found.
With equal passion I have sought knowledge. I have wished to understand the hearts of men. I have wished to know why the stars shine. And I have tried to apprehend the Pythagorean power by which number holds sway above the flux. A little of this, but not much, I have achieved.
Love and knowledge, so far as they were possible, led upward toward the heavens. But always pity brought me back to earth. Echoes of cries of pain reverberate in my heart. Children in famine, victims tortured by oppressors, helpless old people a burden to their sons, and the whole world of loneliness, poverty, and pain make a mockery of what human life should be. I long to alleviate this evil, but I cannot, and I too suffer.
This has been my life.
I have found it worth living, and would gladly live it again if the chance were offered me.
Bertrand Russell

sábado, 26 de abril de 2008

I Sartre

Porque até tem piada - Quiz Farm

A mim deu-me isto.

Existencialism - Your life is guided by the concept of Existentialism: You choose the meaning and purpose of your life. “Man is condemned to be free; because once thrown into the world, he is responsible for everything he does.” “It is up to you to give [life] a meaning.” Jean-Paul Sartre “It is man's natural sickness to believe that he possesses the Truth.” Blaise Pascal

Existentialism
90%
Kantianism
70%
Justice (Fairness)
60%
Hedonism
50%
Strong Egoism
50%
Utilitarianism
50%
Nihilism
45%
Apathy
10%
Divine Command
0%

terça-feira, 15 de abril de 2008

A fragilidade da natureza humana

Confusion in her eyes that says it all, she's lost control. Ouvir isto em repeat pode corresponder à transcendência do espírtio para uma experiência sofredora e martirizadora. Ou ouvir a voz em surdina de Jim Morrison a sussurrar the blue bus is calling us. Recentemente concluí que mais do que escapes para o acomodar ao pain, versos belamente escritos como estes, podem atingir um poder diferente, e surpreendente. Talvez possa ser um tanto ou quanto arrogante, mas arrisco a dizer que o entranhar de inúmeros versos como os que hoje aqui recordo, mais não são do que a possibilidade de comunhão humana.
A fragilidade, o desespero, a desordem são intemporais e inevitáveis, mas, talvez, para além de nas manifestações artísticas podermos perceber a transversalidade da angústia existencial humana, possamos igualmente encontrar o escape. Se a literatura, a música, as artes mais tradicionais como a pintura ou a escultura, nos deixam a nossa frágil natureza a cru, por outro lado, o sentimento de união transversal e do prosaico "ah afinal não só sou eu que sinto/penso isto", fica manifesto. E maior redenção que esta, creio, não poder existir.
Esta semana, a minha redenção ressurgir-me sob a forma do The Greatest, de alguns contos negros de Edgar Allen Poe e da Retórica de Aristóteles. Ainda que esta última não tenha sido uma escolha espontânea, a verdade é que, a conclusão a que chego é que, mais do que um ensaio filosófico sobre as directrizes da arte do proferimento do discurso, esta é uma obra que descontrói a natureza humana, nas suas melhores e piores valências. É irónico e curioso. Aqui fica uma deixa, à la prostituta da Mensa.

Os seres humanos encolerizam-se quando sentem tristeza, pois quem sente amargura é porque deseja alguma coisa. O ser humano encoleriza-se, se alguém se opuser à sua acção ou se alguém não colaborar com ele, ou se, de alguma forma, alguém o perturbar quando está em tal estado. Eis a razão pela qual os enfermos, os pobres, os que estão em guerra, os amantes, os que têm sede e, em geral, os que desejam ardentemente alguma coisa e não a satisfazem são iracundos e facilmente irritáveis, sobretudo contra aqueles que menosprezam a sua situação. O doente encoleriza-se contra os que desprezam a sua doença, o pobre contra os que são indiferentes à sua pobreza, o soldado contra os que subestimam a sua guerra, o apaixonado contra os que desdenham do seu amor; e além destes casos, todos os outros em que se atente contra os nossos desejos. Na verdade, cada pessoa abre caminho à sua própria ira, vítima da paixão que a possui.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Like a rolling stone

Em plena vigência da ditatura da doxa, em que todo aquele que não tem uma opinião formada sobre tudo é tido como culturalmente desinteressante ou socialmente alienado, em que a divergência e plurifonia de vozes parece ser a marca da identidade sólida, em que um certo pudor ou falsidade chega a revestir as ideias supostamente próprias, à luz, mais popularmente de Dylan, e face ao confronto com, novamente, palavras de Platão (ainda hoje me interrogo porque raio o JC tem uma legião de fãs que oscila entre os magnatas e os paupérrimos, quando plagia muitos dos princípios platónicos, e de forma descarada) só o lembrete de que somos simples, vãs e podres rolling stones.


É que na situação em que nos encontramos hoje, é uma vergonha supormos que valemos alguma coisa, quando estamos sempre a mudar de opinião, mesmo em relação aos assuntos mais importantes, tão grande é a nossa ignorância.


segunda-feira, 17 de março de 2008

Hold on to yourself (parte 2)

Nick Cave e Platão, em sintonia.

Eu considero, meu caro, que me é preferível ter uma lira desafinada e dissonante, dirigir um coro a que falte toda a coesão, ou estar em desacordo e oposição com a maioria das pessoas, a estar em dissonância e contradição comigo próprio.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Look at this and tell me that it's not us

Estamos em 1950. A 2ª Guerra Mundial e os seus hediondos crimes eram ainda realidades recentes. O temor por o eclodir de uma nova guerra, apesar das múltiplas estratégias de reconstrução de uma Europa destruída, fazia, porém, já ressentir-se. Guerra tácita desta vez. Guerra de dissuasão. Guerra de negociação entre os donos do mundo. Ao certo, ninguém sabia o que esperar. Nem mesmo as mais ilustres mentes de então, como Hanna Arendt, que escreveu isto.

"Duas guerras mundiais numa geração, separadas por uma série initerrupta de guerras locais e revoluções, e que não foram seguidas de tratado de paz para os vencidos e de trégua para os vencedores, levaram à antevisão de uma terceira guerra mundial entre as duas grandes potências que ficaram. O momento de expectativa é como a calma que sobrevém quando já não há esperança. Já não ansiamos por uma eventual restauração da antiga ordem do mundo com todas as suas tradições, nem pela reintegração das massas de cinco continentes, arremessadas ao caos produzido pela violência das guerras e das revoluções e pela progressiva decadência do que restou. Nas mais diversas condições e nas circunstâncias mais diferentes contemplamos a evolução dos mesmos fenómenos - entre eles o que resulta no problema de refugiados, gente destituída de lar em número sem precedentes, gente desprovida de raízes em intensidade inaudita.
Nunca antes o nosso futuro foi mais imprevisível, nunca dependemos tanto de forças políticas que podem a qualquer instante fugir às regras do bom senso e do interesse próprio - forças que pareceriam insanas se fossem medidas pelos padrões dos séculos anteriores. É como se a humanidade se tivesse dividido entre os que acreditam na omnipotência humana (e que julgam ser tudo possível a partir da adequada organização das massas nesse sentido), e os que têm como principal experiência da vida a falta de qualquer poder.
A análise histórica e o pensamento político permitem crer, embora de modo indefinido e genérico, que a estrutura essencial de toda a civilização atingiu o ponto de ruptura. (...) Incomensurável esperança, entremeada com indescritível temor, parece corresponder melhor a esses acontecimentos que o juízo equilibrado e o discernimento comedido. Mas os eventos fundamentais do nosso tempo preocupam do mesmo modo os que acreditam na ruína e os que se entregam ao optimismo temerário.
Já não podemos dar-nos ao luxo de extrair aquilo que foi bom no passado e simplesmente chamá-lo de nossa herança, deixar de lado o mau e simplesmente considerá-lo um peso morto, que o tempo, por si mesmo, relegará ao esquecimento. (...) Esta é a realidade em que vivemos. E é por isto que são inúteis todos os esforços feitos para fugir ao horror do presente na nostalgia por um passado ainda eventualmente intacto ou no antecipado oblívio de um futuro melhor".

Hillary, devias ler mais Hanna Arendt.