quinta-feira, 17 de abril de 2008

terça-feira, 15 de abril de 2008

A fragilidade da natureza humana

Confusion in her eyes that says it all, she's lost control. Ouvir isto em repeat pode corresponder à transcendência do espírtio para uma experiência sofredora e martirizadora. Ou ouvir a voz em surdina de Jim Morrison a sussurrar the blue bus is calling us. Recentemente concluí que mais do que escapes para o acomodar ao pain, versos belamente escritos como estes, podem atingir um poder diferente, e surpreendente. Talvez possa ser um tanto ou quanto arrogante, mas arrisco a dizer que o entranhar de inúmeros versos como os que hoje aqui recordo, mais não são do que a possibilidade de comunhão humana.
A fragilidade, o desespero, a desordem são intemporais e inevitáveis, mas, talvez, para além de nas manifestações artísticas podermos perceber a transversalidade da angústia existencial humana, possamos igualmente encontrar o escape. Se a literatura, a música, as artes mais tradicionais como a pintura ou a escultura, nos deixam a nossa frágil natureza a cru, por outro lado, o sentimento de união transversal e do prosaico "ah afinal não só sou eu que sinto/penso isto", fica manifesto. E maior redenção que esta, creio, não poder existir.
Esta semana, a minha redenção ressurgir-me sob a forma do The Greatest, de alguns contos negros de Edgar Allen Poe e da Retórica de Aristóteles. Ainda que esta última não tenha sido uma escolha espontânea, a verdade é que, a conclusão a que chego é que, mais do que um ensaio filosófico sobre as directrizes da arte do proferimento do discurso, esta é uma obra que descontrói a natureza humana, nas suas melhores e piores valências. É irónico e curioso. Aqui fica uma deixa, à la prostituta da Mensa.

Os seres humanos encolerizam-se quando sentem tristeza, pois quem sente amargura é porque deseja alguma coisa. O ser humano encoleriza-se, se alguém se opuser à sua acção ou se alguém não colaborar com ele, ou se, de alguma forma, alguém o perturbar quando está em tal estado. Eis a razão pela qual os enfermos, os pobres, os que estão em guerra, os amantes, os que têm sede e, em geral, os que desejam ardentemente alguma coisa e não a satisfazem são iracundos e facilmente irritáveis, sobretudo contra aqueles que menosprezam a sua situação. O doente encoleriza-se contra os que desprezam a sua doença, o pobre contra os que são indiferentes à sua pobreza, o soldado contra os que subestimam a sua guerra, o apaixonado contra os que desdenham do seu amor; e além destes casos, todos os outros em que se atente contra os nossos desejos. Na verdade, cada pessoa abre caminho à sua própria ira, vítima da paixão que a possui.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Momentum

Numa apologia às músicas de viragem. Aimee Mann, com Momentum.


terça-feira, 8 de abril de 2008

Ligeia

Eis aí a vontade que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade em todo o seu vigor? Pois Deus mais não é do que uma imensa vontade que penetra todas as coisas pela natureza do seu esforço aplicado. O homem não se rende aos anjos, nem à morte se rende inteiramente, a não ser pela fraqueza da sua débil vontade.

Joseph Glanvill

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Do Surrealismo do Êxtase


A acompanhar a fotografia de Man Ray, Le Baiser, um pequeno excerto do Manifesto do Surrealismo, de André Breton.

Tant va la croyance à la vie, à ce que la vie a de plus précaire, la vie réelle s’entend, qu’à la fin cette croyance se perd. L’homme, ce rêveur définitif, de jour en jour plus mécontent de son sort, fait avec peine le tour des objets dont il a été amené à faire usage, et que lui a livrés sa nonchalance, ou son effort, son effort presque toujours, car il a consenti à travailler, tout au moins il n’a pas répugné à jouer sa chance (ce qu’il appelle sa chance !). Une grande modestie est à présent son partage : il sait quelles femmes il a eues, dans quelles aventures risibles il a trempé ; sa richesse ou sa pauvreté ne lui est de rien, il reste à cet égard l’enfant qui vient de naître et, quant à l’approbation de sa conscience morale, j’admets qu’il s’en passe aisément. S’il garde quelque lucidité, il ne peut que se retourner alors vers son enfance qui, pour massacrée qu’elle ait été par le soin des dresseurs, ne lui en semble pas moins pleine de charmes. Là, l’absence de toute rigueur connue lui laisse la perspective de plusieurs vies menées à la fois ; il s’enracine dans cette illusion ; il ne veut plus connaître que la facilité momentanée, extrême, de toutes choses. Chaque matin, des enfants partent sans inquiétude. Tout est près, les pires conditions matérielles sont excellentes. Les bois sont blancs ou noirs, on ne dormira jamais.

Mais il est vrai qu’on ne saurait aller si loin, il ne s’agit pas seulement de la distance. Les menaces s’accumulent, on cède, on abandonne une part du terrain à conquérir. Cette imagination qui n’admettait pas de bornes, on ne lui permet plus de s’exercer que selon les lois d’une utilité arbitraire ; elle est incapable d’assumer longtemps ce rôle inférieur et, aux environs de la vingtième année, préfère, en général, abandonner l’homme à son destin sans lumière.

Qu’il essaie plus tard, de-ci de-là, de se reprendre, ayant senti lui manquer peu à peu toutes raisons de vivre, incapable qu’il est devenu de se trouver à la hauteur d’une situation exceptionnelle telle que l’amour, il n’y parviendra guère. C’est qu’il appartient désormais corps et âme à une impérieuse nécessité pratique, qui ne souffre pas qu’on la perde de vue. Tous ses gestes manqueront d’ampleur, toutes ses idées, d’envergure. Il ne se représentera, de ce qui lui arrive et peut lui arriver, que ce qui relie cet événement à une foule d’événements semblables, événements auxquels il n’a pas pris part, événements manqués. Que dis-je, il en jugera par rapport à un de ces événements, plus rassurant dans ses conséquences que les autres. Il n’y verra, sous aucun prétexte, son salut.

Chère imagination, ce que j’aime surtout en toi, c’est que tu ne pardonnes pas.